
O município de 165.511 habitantes, segundo estimativa do IBGE, sofre grave crise hídrica e, desde fevereiro, adota racionamento. Nesta quinta-feira (18), diante do baixo índice dos reservatórios que atendem à cidade e da falta de previsão de chuva para os próximos dias, a concessionária Águas de Itu anunciou que a medida seria ampliada. De acordo com comunicado da empresa, a região do Pirapitingui, que estava fora do rodízio, agora passou a receber água em dias alternados, das 18h às 6h.
Na prática, a deficiência no abastecimento já vem acontecendo há muito tempo no Jardim Novo Mundo, conforme denunciam moradores. O R7 esteve no local na última terça-feira (16) e ouviu relatos de pessoas que afirmaram sofrer com o problema há mais de seis meses. Algumas contaram que estavam sem água há seis dias consecutivos. Claudete era uma delas.
Mesmo com a suspeita de contaminação da água da mina, ela diz que precisa recorrer à alternativa por falta de dinheiro.
— Eu cozinho, lavo roupa, uso no banheiro, tomo banho. Não tenho condição de comprar água. Morro de medo de ficar doente. Estou cheia de coceira.
A operadora de máquina Maria Ferreira da Silva, 35, engrossa a lista de reclamações.
Ela conta que busca água represada a partir da mina de cinco a seis vezes por dia e que usa o líquido para lavar o quintal e jogar no vaso sanitário.
Com a falta d’água as flores, orgulho de Andrea, morreram Daia Oliver/R7
— Contaminada eu sei que é. Medo dá [de contrair doença], mas não tem outra solução.
Cem dias a seco
Na zona leste da cidade, no Bairro Brasil, local de construções de bom padrão, o problema da falta d’água também atormenta os moradores. Na rua Piauí, uma das mais afetadas, algumas casas estariam há cerca de cem dias sem receber uma gota do líquido. O imóvel da aposentada Márcia Leite, 53, é um deles.
Desde junho, ela começou a observar com mais atenção o hidrômetro e notou que, de julho a setembro, o marcador não sofreu alteração.
— A leitura da própria concessionária de 16 de julho, 16 de agosto e 16 de setembro é a mesma. Ou seja, não entrou nada de água na minha casa […] A gente está querendo água. Não estou querendo, porque faz uma semana que não tem. Estou porque faz meses que não tenho. É um descaso até.
Como a deficiência no abastecimento de água em Itu não é uma questão recente, há cinco anos, o marido de Márcia colocou uma caixa d’água no nível da torneira que chega da rua e instalou uma bomba para encher os reservatórios da parte superior da casa. Basta circular pelo bairro para notar que o recurso tem sido adotado como alternativa por muitos moradores. É comum encontrar caixas d’água na frente dos imóveis.
Márcia diz que já fez inúmeros protocolos junto à concessionária Àguas de Itu. De acordo com ela, os dados são anotados pelos atendentes, que passam as informações “para o setor responsável”, que tem a função de “analisar a prioridade”.
— Não conheço realmente um lugar onde as pessoas falem: “Vem [água] um dia sim e um dia não”. Aqui [na rua dela] é dia não e dia não […] É um caso de desrespeito. Entendo que todo o Estado de São Paulo está com problema de falta de chuva, mas, particularmente, Itu, começou a ter essa dificuldade muito antes. Agora, especificamente na minha rua, passou da fase de racionamento. Está na falta total.
Também residente na rua Piauí, a dona de casa Andréa Araújo, 44, diz que liga todos os dias para a concessionária. Ela se emociona ao se lembrar de um pedido feito pela filha de 14 anos.
— Já passei da revolta. Agora, estou dando risada. Já chorei, já gritei. Sabe o que minha filha pediu de aniversário? Banho de chuveiro.
O imóvel dela um dia foi conhecido como a “casa dos vasinhos” em razão dos gerânios e das flores popularmente chamadas de onze-horas pregadas em uma das paredes do quintal, que hoje também uma caixa d’água. Ao olhar para as plantas secas, ela lamenta.
— As pessoas paravam para tirar foto do meu jardim. Foi tudo embora.
fonte: R7
