
Trump baseou sua campanha presidencial nesta mesma retórica, criticando democratas e alguns republicanos pelo que avaliava como uma política externa excessivamente intervencionista.
Há só uma semana, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, parecia seguir essa filosofia ao dizer, em resposta a apelos para que o presidente sírio, Bashar al-Assad, fosse removido do cargo, que isso “seria decidido pelo povo sírio”.
Mas na noite de quinta-feira, dois dias após um novo ataque com armas químicas, Trump ordenou o lançamento de mísseis contra uma base militar síria. Isso marca uma reviravolta dramática na sua postura e leva a uma revisão das expectativas sobre sua política externa.
Após o ataque à base militar, Trump afirmou ser “vital para a segurança nacional dos Estados Unidos prevenir e impedir o uso e a disseminação de armas químicas letais”. Ele ainda pediu que “nações civilizadas” deem fim “ao derramamento de sangue e massacre” da guerra civil na Síria.
O homem que vinha sendo chamado de neoisolacionista agora, alguns meses após o início de seu mandado, está fazendo uso da força militar americana para que sejam cumpridas normas internacionais e punidos abusos contra direitos humanos.
E agora?
O que mudou? Parece claro que as imagens dramáticas das vítimas (do ataque químico) – entre elas, “bebês lindos”, nas palavras de Trump – tiveram um grande impacto sobre a visão do presidente americano.
Com algumas exceções, políticos de esquerda e de direita em Washington estão parabenizando o governo por sua ação. Nos próximos dias, no entanto, algumas questões virão à tona.
Se a política internacional de Trump pode mudar tão radicalmente em poucos dias – ou horas -, aliados e adversários devem interpretar isso como sinal de flexibilidade? Ou incoerência?
Um ataque com mísseis é uma operação militar de baixo risco, mas tem eficácia limitada. Um membro da Casa Branca descreveu a operação como um alerta para Assad.
Se o presidente sírio continuar a usar armas químicas ou realizar ataques convencionais que resultem em um número significativo de mortes de civis, os Estados Unidos intensificarão seu intervencionismo militar, ou recuarão, sob o risco de aparentar fraqueza?
Quando Obama contemplou o uso da força contra o governo sírio, decidiu que precisaria da autorização do Congresso. Trump buscará a mesma aprovação de parlamentares que já se demonstraram relutantes em permitir esse tipo de ação?
Esta quinta-feira foi o primeiro desafio relevante para a política externa de Trump e parece ter mudado drasticamente seu ponto de vista, sua retórica e suas ações.
O candidato que constantemente falava em colocar a América em primeiro plano terminou seu breve pronunciamento na noite de quinta pedindo a benção de Deus em nome não apenas de seu país, mas de “todo o mundo”.
O ataque – e sua mudança de atitude – pode ser algo do momento. Ou, talvez, estejamos testemunhando o nascimento de um improvável globalista.
Fonte: BBC BRASIL
