Alagoas

De cidade do interior de Alagoas ao São Paulo: conheça a psicóloga que cuida da mente das atletas

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Natural de Igaci, Nathany Cavalcante saiu do futebol do interior de Alagoas para integrar a comissão técnica do São Paulo e afirma que cuidar da mente dos atletas é tão importante quanto preparar o corpo.

Da rotina hospitalar ao futebol de alto rendimento. Em menos de três anos, a psicóloga alagoana Nathany Cavalcante construiu uma trajetória que a levou do interior de Alagoas à comissão técnica da equipe profissional feminina do São Paulo Futebol Clube.

Natural de Igaci, município do Agreste alagoano, Nathany atua hoje no núcleo de saúde e performance do Tricolor Paulista, onde acompanha diariamente as atletas em uma rotina que envolve treinos, viagens, concentrações, jogos e atendimentos individuais. Em entrevista ao programa FSports, da Rede Francês FM, ela falou sobre os desafios da Psicologia do Esporte e o impacto da saúde mental no desempenho de atletas de alto rendimento.

Antes de ingressar no futebol, Nathany trabalhou por cerca de dez anos na área hospitalar. A mudança de carreira aconteceu após a pandemia, quando recebeu um convite para integrar a comissão técnica do CSE, de Palmeira dos Índios. O bom trabalho abriu caminho para o CSA e, posteriormente, para a aprovação em um processo seletivo que a levou ao São Paulo.

Ao chegar ao clube alagoano, ela encontrou uma realidade em que a Psicologia do Esporte ainda era pouco conhecida.

“Cheguei na urgência. Como nunca tinha tido psicólogo lá, as pessoas não sabiam como funcionava o nosso trabalho. Costumo dizer que é um trabalho de formiguinha. Vamos construindo espaço, caminhos e ações até atingir os objetivos”, relatou.

Muito além do consultório
No São Paulo, Nathany faz parte de uma equipe multidisciplinar formada por médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos, fisiologistas e nutricionistas. Segundo ela, o acompanhamento psicológico está inserido em toda a rotina das atletas.
“A gente acompanha desde o momento em que elas chegam ao centro de treinamento até a saída para casa. O trabalho acontece todos os dias”, explicou.

Ela destaca que o papel do psicólogo esportivo vai muito além de atender atletas em momentos de crise. O objetivo é identificar precocemente alterações comportamentais que possam comprometer a saúde emocional e, consequentemente, o rendimento em campo.

“A gente observa padrões de comportamento. Se uma atleta normalmente é comunicativa e passa a se isolar, por exemplo, isso merece atenção. Nem toda queda de rendimento significa um problema psicológico, mas precisamos entender quando aquela mudança foge do padrão.”

Pressão permanente

Durante a entrevista, Nathany chamou atenção para a intensa pressão enfrentada pelos atletas profissionais, que convivem diariamente com cobranças por resultados, exposição pública e longos períodos longe da família.
“O atleta não tem folga. Trabalha de domingo a domingo. Quando consegue descansar, muitas vezes está tão longe de casa que não consegue ver a família. A folga acaba sendo ficar sozinho dentro de um apartamento.”

Segundo ela, esse cenário reforça a necessidade de um acompanhamento psicológico contínuo dentro dos clubes.

Saúde mental ainda é tabu

A psicóloga acredita que o tema ganhou espaço nos últimos anos, mas ainda enfrenta resistência, principalmente entre homens, que muitas vezes evitam demonstrar fragilidade emocional.

“Hoje essa realidade está mudando, porque as pessoas estão percebendo que cuidar da saúde mental também faz parte da preparação.”

Ela citou como exemplo um trabalho realizado com as atletas do São Paulo utilizando um vídeo em que o atacante Matheus Cunha fala sobre o medo de errar.

“Quando um atleta consegue dizer que está com medo, ele abre uma porta para ser ajudado. O que mais me preocupa é aquele que diz que não sente medo de nada. O medo pode ser um grande incentivador quando é bem administrado.”

Futebol feminino exige atenção específica

No trabalho com o elenco feminino, Nathany explica que é preciso considerar fatores específicos, como alterações hormonais, ciclo menstrual e cólicas, além das cobranças comuns ao futebol profissional.

Ela também destaca que o apoio da torcida influencia diretamente o desempenho das jogadoras.

“Mesmo quando temos um público pequeno, já percebemos uma diferença no comportamento e na performance das atletas.”

Entre as estratégias adotadas para fortalecer o grupo estão atividades coletivas voltadas ao desenvolvimento emocional. Após uma partida do Campeonato Paulista, por exemplo, cada atleta escreveu em um quadro branco aquilo que estava sob seu controle durante o jogo, reforçando o foco naquilo que realmente poderia administrar.

Psicologia como aliada da performance

Para Nathany Cavalcante, a Psicologia do Esporte deixou de atuar apenas em momentos de crise e passou a ocupar um espaço estratégico dentro das comissões técnicas.
“O trabalho do psicólogo não se resume a ouvir. A gente trabalha performance, educação, prevenção e faz de tudo para melhorar cada vez mais o desempenho do atleta”, concluiu.

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