Em entrevista cedida nesta sexta-feira (08/12/2017), psicóloga fala sobre os problemas escolares como sendo resultado da relação, muitas vezes conflitante, entre escola e família, veja na íntegra, a fala da profissional:

É inegável a interferência dos comportamentos positivos e negativos da família, principalmente dos pais para com os filhos, bem como os efeitos causados no desenvolvimento psicológico durante a vida sob os principais aspectos, como, o desenvolvimento intelectual e social além de aquisições de habilidades, capacidades e comportamento humano, resguardando tanto a base já construída, como as que serão reconstruídas. O desenvolvimento humano é um alicerce de interações, que envolve aspectos biológicos, físicos, sociais e culturais que produz indivíduos com um modo de pensar, sentir e estar no mundo, absolutamente únicos, que se constrói a partir do que é absorvido em suas relações, logo, “o desenvolvimento é a história de como se constroem as atividades mentais, a maneira como a criança vai adquirindo gradualmente modos de interagir com o mundo, caracteristicamente humanos e “herdados” socialmente” (GOMES, 2005, p. 7). Neste sentido, depois da família, a escola ocupa o maior meio social para o sujeito se desenvolver, destas, se espera a base de e para o equilíbrio, assim, uma das tarefas mais importantes, embora difícil de ser implementada, é “preparar” alunos, professores e pais para superarem as dificuldades de conflitos interpessoais, evitando interferências no processo de desenvolvimento, até porque, episódios de conflitos familiares podem gerar na criança, estados afetivos internos de sofrimento psíquico, alterações emocionais e fisiológicas; então, o crescimento e a educação de uma criança envolvem a prática de uma dinâmica relacional complexa, devendo ser discutida entre os cuidadores, escola, professor e outros envolvidos.
A transicionalidade entre o mundo interno e externo é permanente e inevitável de forma que todo processo relacionado ao sujeito e seu desenvolvimento devam estar assegurados nessas instituições como matriz da aprendizagem humana para continuidade do bem-estar coletivizado, incluindo a proteção da criança e desde o início a criança deve ser incentivada a buscar reconhecimento de si e do outro, princípio esse que lhe confere a expansão e o amadurecimento do seu universo enquanto criança, e mesmo diante de conflitos familiares, como separação dos pais, ela possa “entender” com menos sofrimento, ou que não desenvolva problemas adversos levando em consideração as vários âmbitos atingidos, alguns fatores podem acontecer como, evasão escolar, fracasso e atraso escolar, dificuldades de aprendizagem na leitura, escrita ou cálculo, dentre outros, devido o envolvimento emocional.
Dessa forma, é necessário que o exercício dos papéis parentais e a escola permaneçam como apoio de sustentação, de maneira que, a criança se sinta protegida num espaço com suporte fortalecedor e potencializador ao desenvolvimento sem interferências conflituosas; quanto maior for a parceria entre ambas, mais positivos e significativos serão os resultados na formação dessa criança/filho. “A participação dos pais na educação formal dos filhos deve ser constante e consciente para que a vida familiar e a vida escolar sejam simultâneas e complementares” (CARDOSO, 2009, P. 74). Portanto,quando se refere a períodos como da infância, em especial na educação infantil, é fundamental o equilíbrio afetivo nessas relações, pois nessa fase a criança não apresenta, ainda, maturidade. É preciso separar as experiências emocionais negativas que estão fazendo parte da vida afetiva do casal, e propiciar um ambiente de prazer, alegria e bem-estar, que são elementos indispensáveis para o desenvolvimento, sendo potencializados os “aprendizados”de modo geral.
Dentro das questões que envolvem a essencialidade da qualidade da interação para o desenvolvimento humano, seria superestimar a estima contribuição de dois autores, Piaget e Vygotsky que dedicaram anos de estudos a esse assunto. Piaget considerava que o desenvolvimento humano pode ser construído e/ou modificado, e pode interferir no desenvolvimento global, visivelmente. Acreditava que as funções executivas, estavam às adaptações ao ambiente de forma continua, onde o desenvolvimento cognitivo incrementa respostas cada vez mais complexas e especializadas ao ambiente. Para Vygotsky, o ponto central é a aquisição de conhecimentos através da interação das relações pessoais e troca com o meio, através do processo da linguagem e histórico-social de e para o desenvolvimento do sujeito. O autor acredita que as distinções e atitudes individuais estão internadas pelas trocas com o coletivo, isto é, somos construídos a partir da relação com o outro.
É importante ressaltar essas observações justamente porque uma criança está em processo de construção de desenvolvimento, e tudo que ela vivencia é interpretada como definitivo, contudo, os pais e a escola devem estar atentos aos acontecimentos conflituosos, por exemplo, o que os pais ou a família falam sobre o pai e a mãe, essas questões são delicadas e podem ser danosas. De todo modo, é necessário considerar as individualidades expostas para uma melhor compreensão do contexto e buscar resoluções.
Nesse processo, as reformas educacionais têm se manifestado efetivamente na vida de famílias que necessitam de apoio da escola, onde a formalização das relações família-escola, devem ser efetivas, afim de evitar uma sobrecarga para o filho/aluno, assim “se o aluno assume papeis que não lhe cabem, isso pode confundir ou tumultuar o seu processo de desenvolvimento” (SANTOS E SEVERINO, 2003, p. 12). Cabe ressaltar que, os pais, independentemente de estarem juntos, são os responsáveis pelos filhos em todas as suas etapas, podendo ser intensificada, energizada no intuito de contornar ou superar conflitos existentes tendo em vista muitos aspectos em jogo para a criança como, fantasias, sonhos, medos, expectativas, frustrações etc., por isso é importante que os vínculos afetivos entre pais e filhos sejam ressignificados, inclusive, respeitando as divergências de modo a não denegrir a imagem do pai e da mãe, criando meios assertivos que garantam o vínculo de boa qualidade entre eles, para favorecer o desenvolvimento da criança, como meta para torná-las livres e autônoma. Para isso, escola e família devem estar de mãos dadas, cada um com seu papel, mas principalmente, para que os filhos, os alunos sintam-se parte do processo, “assim os conteúdos que a escola veicula devem servir para desenvolver novas formas de compreender e interpretar a realidade, enfim tornar o indivíduo reflexivo do mundo que o rodeia” (VYGOTSKY, 2001, APUD BOCK ET TAL, 2008, P. 142), para isso, deve haver um desempenho contínuo e em conjunto no enfrentamento de situações conflituosas de maneira mais eficiente. As emoções familiares possuem interferências diretas no desenvolvimento humano, sobretudo da criança, portanto, é necessário ressignificar suas interposições e representações.
As vivências que são os fatos ou acontecimentos representados particularmente em cada um de nós, causam também sentimentos particularmente variados em cada um, tais como ansiedade, medo, alegria, angustia raiva, apreensão etc. Assim, podemos dizer que as reações vivenciais, são repostas emocionais as nossas vivencias, tal como as reações alérgicas são respostas imunes aos sentimentos que nos sensibilizam(BALLONE, ORTOLANI, NETO (2007, p. 49).
Sérgia Mônica da Silva Nascimento
Psicóloga (CRP 15/4154) Coach pessoal e profissional com atuação na clínica psicológica e consultora educacional, com intervenções efetivas nos espaços escolares.
REFERÊNCIAS:
BOCK, et. al. Psicologia da aprendizagem. In: Psicologias. – 140 ed. São Paulo: Saraiva, 2008
CARDOSO, A. R. Escola e pais separados uma parceria possível. Curitiba: Juruá. 2009.
GOMES, M. A. Família em situação de vulnerabilidade social: uma questão de saúde públicas. Ciência & saúde coletiva. 2005.
PIAGET, J. PIAGET, J. A construção do real na criança. São Paulo: Ática, 1996. In: BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. Psicologia do desenvolvimento. In: Psicologias. – 140 ed. – São Paulo: Saraiva, 2008, p. 120.
SANTOS, J. C. SEVERINO, N. R. L. A não participação da figura paterna na vida escolar do filho – repercussões sobre o seu desenvolvimento. 2003. Disponível em: < http://www.apase.org.br/. > acesso em: 15/01/2015.
______. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2001. In: BOCK, et. al. Psicologia da aprendizagem. In: Psicologias. – 140 ed. São Paulo: Saraiva, 2008.
_______. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológico superiores. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
______et. al. Bases psicológicas da aprendizagem e o do desenvolvimento. São Paulo: Moraes, 1991. In: GOMES, A. M. A criança, cognição e cérebro. Rio de janeiro: Revinter, 2005.
