Olho Vivo

Crise na UPA de Palmeira: Tragédia anunciada

Publicidade

As duas mortes de pacientes registradas nos últimos dias, em decorrência do péssimo atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Palmeira dos Índios, tratam-se, na verdade, de uma tragédia anunciada e há muito tempo. Apenas após as repercussões, mais do que negativas, mas danosas à sua imagem de gestor, o prefeito Júlio Cezar adotou como medida principal transferir o funcionamento da Secretaria de Saúde, que tem à frente a ex-prefeita de Maceió, Katia Born, para dentro da UPA.

O prefeito fez “vazar” a notícia de que estava “abalado” com as notícias da UPA, que teria passado o final de semana “triste” e não compareceu em nenhum festejo junino, além de ter cancelado todos os compromissos do final de semana.

Ao gestor, antes de tudo, cabe apenas uma palavra: ação. No caso de Júlio Cezar, ela veio tarde demais. Por algum motivo, deixou claro para a população de Palmeira dos Índios que empurrou com a barriga a situação amplamente conhecida de má gestão na UPA local. Resultado: duas mortes que poderiam ter sido evitadas se a equipe de médicos e enfermeiros da unidade tivesse o mínimo de responsabilidade, ética e respeito ao cidadão.

Em nota divulgada a respeito da morte do frentista Fábio Nogueira dos Santos, de 33 anos, que procurou a UPA por duas vezes e não foi devidamente atendido ou medicado, a Prefeitura tenta explicar a série de trapalhadas protagonizadas pela (incompetente) equipe da UPA. E não conseguiu. Destacou a nota que a Prefeitura vai abrir uma sindicância para encontrar culpados e suas respectivas responsabilidades.

A nota ainda tenta negar declaração da ex-vereadora Elane Balbino Gomes que relatou a falta de ambulâncias para a transferência do frentista para outra unidade hospitalar ou para o Hospital de Emergência do Estado (HGE), em Maceió.A informação da ex-vereadora, em um áudio postado nas redes sociais, de que faltou ambulância no município para transferência do paciente para Maceió, são equivocadas e não refletem a verdade. Atualmente são 04 ambulâncias, além do Samu para o transporte de pacientes clínicos ou graves para outras unidades de saúde”, diz a nota.

No entanto, por iniciativa própria, ele procurou a UPA no dia 10 passado queixando-se de dores abdominais desde o dia anterior. Foi atendido e liberado. No dia 11 voltou à unidade ainda sentindo dores e vomitando. Mais uma vez, foi atendido e recebeu alta médica. Cada médico da UPA apresentou um diagnóstico sem recomendar, sequer, exames básicos de sangue, por exemplo, o que colaborou, sim, para o agravamento da situação da vítima.

Fábio também procurou o Hospital Santa Rita, onde finalmente foi diagnosticado com quadro abdominal agudo e ficou internado por dois dias para, então, ser transferido para o HGE, onde faleceu no sábado (17).

Em tom de revolta a ex-vereadora Elane Balbino desabafa no áudio divulgado nas redes sociais, que Fábio Nogueira sofreu, de fato, com o descaso da saúde pública em Palmeira dos Índios. Elane Balbino ainda revelou a falta de uma ambulância pela Prefeitura para transferir o paciente até a capital. Para tanto, foi necessário acionar uma ambulância do município vizinho, Estrela de Alagoas. Já em Maceió o trabalhador foi diagnosticado e necessitou passar por cirurgia, vindo a óbito logo em seguida.

O áudio gravado pela ex-vereadora denuncia também que estaria sendo cobrada pelo Hospital Santa Rita uma taxa de R$ 90 para que os atendimentos viessem a acontecer, mesmo havendo o repasse do Sistema Único de Saúde (SUS).

Também cabe lembrar da morte do cidadão Kennedy Mitomari. O falecimento repentino e também motivado pelo desrespeito e despreparo de médicos e enfermeiros da UPA, causou revolta em familiares e amigos.

Somente na manhã desta segunda-feira, a Prefeitura de Palmeira dos Índios, dada a pressão popular, realizou uma reunião com equipes da Secretaria Municipal de Saúde, representantes da UPA, com o controlador Geral, Klenaldo Oliveira, o procurador do município, Marcondes Oliveira, o secretário de Articulação, Emílio Silva, assessores e representantes do Hospital Santa Rita.

“Nunca na história da UPA um governo despachou de dentro da Unidade. Todo dia recebemos reclamações dos usuários. A partir de hoje, para resolver todos esses casos. A secretaria vai acompanhar de perto para fazer todas as mudanças necessárias e resolver, definitivamente, o problema”, informou a assessoria da prefeitura.

Nas redes sociais, a população mostra sua indignação, agravada pela falta de habilidade política do atual prefeito e também pela evidente falta de respeito com as causas da população de Palmeira dos Índios. Numa das mensagens, o internauta é enfático com o problema e irônico com Júlio Cezar.

“Que povo? Que povo é esse que tem direito a nossa palmeira. Onde está o filho da verdureira? Como é que agora feirante tem um carnê pra pagar se quiser trabalhar? Mas e cadê o filho da verdureira? Que nasceu e se criou da feira e agora quer acabar com os feirantes. E cadê o hospital do povo? Ja se passaram 6 meses e a quantidade de gente que esta morrendo é assustadora. E a UPA? O que é isso mesmo????? Como já descrito por outras pessoas: é corredor da morte. E mais quantas pessoas precisam morrer? E mais quantas crianças não serão atendidas?”, declarou.

Na mesma mensagem, o internauta continua seu lamento. “Palmeira do povo?

Que povo é esse? Onde vez e voz só tem o rico. Onde todos ricos estão empregados; pais, filhos, irmãos, genros e noras… Palmeira do povo? Que povo é esse? Onde até pra se enterrar paga. Em Palmeira dos Índios se morrer tem que pagar! Mas Palmeira do povo?? Que povo? Onde prefeito acha que indo à UPA pra publicar matéria de descaso vai resolver todo o sofrimento e a humilhação que a população vem passando. Palmeira do povo?? Que povo é esse?? Elegemos filho da verdureira e assumiu uma pessoa diferente que não honra sequer a profissão”, destacou o indignado palmeirense.

Em outra mensagem, um outro palmeirense externou sua opinião. “Senhor Prefeito Júlio Cezar fica aqui meu repúdio ao seu governo, a sua administração, aos seus secretários despreparados, a sua gestão desumana e elitizada. Fica meu repúdio a sua falta de respeito ao povo de Palmeira”, finalizou.

O Hospital Regional Santa Rita também recebe diariamente críticas pela cobrança indevida de R$ 90 aos pacientes que precisam de atendimento. Outra reclamação antiga é pela falta de médicos especialistas, como por exemplo, de pediatras e cardiologistas. Cirurgias de portes médios também não acontecem no hospital, como a de colecistectomia ou vesícula, a mesma que poderia ter evitado a morte do frentista Fábio Nogueira.

E agora prefeito? E agora secretária? Continuamos de olho!

Publicidade