
A recuperação de Rufino aconteceu em 2010, mas o caso só ganhou a atenção do público agora quando o jornal local português “Jornal de Notícias” publicou a história. “Qualquer situação como essa, em que um médico tem a chance de mudar de verdade a vida dos pacientes, é muito gratificante”, disse a neurologista portuguesa Teresinha Evangelista, responsável por dar o diagnóstico correto ao paciente à BBC.
A miastenia congênita é uma doença neuromuscular que causa um defeito na transmissão dos impulsos dos nervos para os músculos, o que gera uma fraqueza incrivelmente rápida dos músculos que passam a não responder com movimentos. Ao contrário da distrofia, o problema pode ser revertido com o uso de um medicamento simples.
Diagnóstico correto
Segundo Teresinha, que hoje atua no Instituto de Medicina Genética da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, a doença de Rufino ainda é muito rara e, por isso, é muito difícil identificá-la se não for um médico já acostumado a ver pacientes com sintomas semelhantes.
“Era esse o diagnóstico possível naquela época. A miastenia congênita não era conhecida e só foi definida como doença na década de 1970”, afirmou sobre o erro de diagnóstico.
Por coincidência, a médica, que está acostumada a tratar pacientes com esse problema, estava tratando a irmã de Rufino, que tinha a mesma doença, só que com menos gravidade. “Quando ela me contou sobre seu irmão, eu disse na hora que queria vê-lo para uma consulta.”, contou.
Cerca de 15 dias depois, Rufino foi ao seu consultório. “O quadro clínico era muito característico. Havia muita variação na função motora. A pessoa pode caminhar por cinco minutos, mas depois tem que parar e descansar. A doença também afeta os músculos respiratórios, mas a fraqueza não é permanente”, explicou a neurologista.
Teresinha pediu então que Rufino fizesse alguns exames, como um eletromiograma, que registra por eletrodos as correntes elétricas que se formam nos nervos e músculos quando eles se contraem e é usado para identificar doenças neuromusculares, e um teste genético.
O eletromiograma já foi o suficiente para confirmar a miastenia, mas, como o problema de Rufino era congênito – já que sua irmã também tinha a doença – a médica realizou um teste do material genético para identificar qual gene em específico estava causando o problema.
Problema genético
O eletromiograma já foi o suficiente para confirmar a miastenia, mas, como o problema de Rufino era congênito – já que sua irmã também tinha a doença – a médica realizou um teste do material genético para identificar qual gene em específico estava causando o problema.
“Mas naquela época, esse teste ainda não estava disponível em Portugal, então pedi a um colega em Munique (Alemanha) para fazer por lá. Quando recebi os exames da Alemanha, vi que Borrego tinha uma mutação especificamente no gene chamado Dok-7. Uma vez identificado o gene, ficou muito mais fácil o tratamento, porque sabíamos que miastenia congênita por uma mutação no Dok-7 pode ser tratada com um medicamento chamado ‘salbutamol’.”, explicou a neurologista.
Esse remédio é tipicamente usado para o tratamento de asma e, nesses pacientes, é administrado em forma de inalador, mas para Rufino, foi prescrito em pastilhas. Pouco depois do início do tratamento, ele já voltou a caminhar. “Na consulta seguinte, ele estava andando de muletas e logo não precisou mais delas.”, contou a médica.
Depois que voltou a andar, o primeiro lugar que o português quis visitar foi um café que ficava no seu bairro. “Pensamos que era um milagre”, disse o dono do café, Manuel Melao, ao Jornal de Notícias. O diário relata que agora Borrego é praticamente uma celebridade na cidade.
Atualmente, Rufino consegue andar normalmente e faz sessões de fisioterapia apenas duas vezes ao ano. Ele afirma que não guarda qualquer mágoa dos médicos que lhe deram o diagnóstico errado. “A miastenia era uma doença desconhecida naquela época. Só quero aproveitar a minha vida”, diz.
