
Em São Cristovão, cidade histórica de Sergipe, com quase 90 mil habitantes, criança tem preço. Na cidade, pessoas, inclusive autoridades, alugam chácaras com piscina pra passar finais de semana com adolescentes.
A menina, de mãos pequenas e de aparência frágil, foi vendida pelos próprios pais, exatamente aos doze anos e virgem.
José do Anjos, o comprador, 44 anos mais velho que a menina, o comerciante se defende: “Foi ela que se insinuou pra mim!” Ele tem uma vida simples. Não é rico, mas diante da situação financeira da maioria na cidade, é considerado por alguns como poderoso.
Pelo menos duas vezes por semana, José dos Anjos tirava proveito da filha de José Carlos, um pequeno agricultor da cidade.
A família da menina contou que eles eram ameaçados pelo comerciante. Quando José dos Anjos foi preso, a mãe da jovem estava tão apavorada que não quis mostrar o rosto.
Segundo o juiz de São Cristovão, a menina é mais uma vítima de uma visão preconceituosa e ultrapassada que ainda sobrevive. Ele conta que já evitou vários leilões de virgens. — Duas adolescentes, uma de 12, outra de 14 anos, foram vendidas a dois comerciantes. Virgens! Nós conseguimos chegar num sábado à tarde, 5h da tarde, e impedir a consumação.
A menina trocada por uma vaca não teve a mesma sorte. A Justiça não chegou a tempo. José Carlos e Dona Maria têm seis filhos. A adolescente, que foi vítima de abuso, é a mais velha e agora está com 14 anos. São oito bocas pra sustentar com a venda de vassouras de piaçava, que rende no máximo mil reais mensais.
A garota diz que a história que foi vendida para um homem não é verdadeira. “A história da vaca nunca aconteceu, eles inventaram. Não teve o comércio da vaca”, afirma.
Mas não é isso que mostra o processo, que o programa obteve com exclusividade. Nele, o conselheiro tutelar Douglas Santana afirma que José Carlos, o pai da vítima, ganhou uma vaca do abusador.
O que não resta dúvidas é que os pais acabaram aceitando o abuso contra a filha. A mãe flagrou o que aconteceu e contou para o marido, mas ele não fez nada pela menina porque ela perdeu a virgindade. Na mentalidade dele, a garota não merecia mais ser protegida.
Para evitar a fuga da filha, ele até permitiu que a casa fosse construída no quintal das terras dele. O conselho tutelar afirma que a menina está grávida e investiga se ela continua sofrendo abusos sexuais
Segundo a organização Promundo, que fez uma pesquisa sobre “casamento na infância e adolescência no Brasil “, o país ocupa o quarto lugar no mundo em número de crianças casadas. São 66 mil meninas com idades entre 10 e 14 anos vivendo em uniões informais, 2600 crianças casadas oficialmente em cerimônias religiosas ou cartórios e por volta de 500 mil meninas que casaram aos 17 anos.
De acordo com a pesquisa, são cinco fatores que levam crianças a se casarem. Um deles é a imposição da própria família quando descobre que a filha engravida e/ou tem uma vida sexual ativa, mesmo a contragosto, como no caso da menina trocada pela vaca. Outro motivo seria garantir uma vida estável para as garotas e a família.
Depois da reportagem do Repórter Record Investigação, o pai da menina foi misteriosamente assassinado. A informação da polícia é que quatro homens apareceram, mandaram os filhos para dentro de casa e o mataram com um tiro na cabeça. Nada foi roubado. Os investigadores agora querem descobrir o real motivo do assassinato.
Agências
